Revelação e filosofia medieval

Já vinha pensando em um texto sobre a diferença óbvia entre a filosofia medieval e a filosofia moderna, quando me deparei com o trecho que vai a seguir quando pesquisava sobre o conceito de “intencionalidade”:

“Whether or not all objects of thought are non-existent, it certainly seems that many are, including those that are obviously fictitious (The Grinch, Sherlock Holmes) or likely non-existent even if many people believe in them (Faeries, Hell).”
Internet Encyclopedia of Philosophy

Para marcar a diferença que percebo, o exemplo não poderia ser melhor: para os filósofos medievais, o Inferno era um fato porque a Revelação era um fato. Um fato fundamental – ou melhor: fundador – porque trazia informações que nos seriam impossíveis de alcançar por nosso próprio esforço: sem a Revelação, jamais alcançaríamos essas verdades. Portanto, um fato de valor metafísico imprescindível porque oferecia um marco – absoluto porque divino – para a constituição de uma “ciência dos primeiros princípios” – ou ainda melhor: uma verdadeira teologia.

Nesse sentido, a Revelação é uma Graça coletiva (assim como a chuva que cai igualmente sobre os bons e sobre os maus), algo que eleva a natureza humana a uma nova condição espiritual. É, de fato, como se os Céus se abrissem novamente, uma abertura para o sobrenatural que restabelecia o fluxo incessante da “escada de Jacó”. O Mundo é literalmente recriado pelo Verbo feito carne: “Enviai, Senhor, o Vosso Espírito, e tudo será criado. E renovareis a face da Terra.” Se foi pela Palavra que o mundo foi criado, será pela Palavra que ele será recriado.

A Revelação – que é inseparável do Nascimento, Paixão e Ressurreição de Jesus – lança uma luz nova não só sobre o Antigo Testamento como sobre todo o pensamento humano anterior. É à luz da Revelação que tudo mais será medido, esclarecido, afirmado, ampliado ou negado. À luz da Revelação a filosofia torna-se uma espécie de teoria geral da relação do Criador com suas criaturas.

E qual é a Boa Nova que a Revelação traz? Em uma frase: o corpo é bom. A matéria é boa.

Não posso afirmar com certeza, sweria algo a se pesquisar, mas tenho a impressão que a negação do corpo e da matéria é o traço comum a todas as religiões anteriores ao Cristianismo. Essa negação do corpo – que Platão, seguindo os pitagóricos chamava de “prisão da alma” – é, por exemplo, a óbvia conclusão (na verdade, o fundamento!) da ideia de reencarnação, transmigração de almas, comum a todo o Oriente, aos neoplatônicos, aos gnósticos.

É conhecida a reação dos atenienses que ouviam curiosos a pregação de Paulo no Areópago até o momento em que ele afirmou a ressurreição dos corpos no Juízo Final: deram as costas e foram embora rindo. Só teria ficado um certo Dionísio a quem mais tarde foram fraudulentamente atribuídos escritos de enorme influência no desenvolvimento do Cristianismo por conta da autoridade conferida pela falsa autoria: Dionísio, convertido por São Paulo, teria sido o primeiro bispo de Atenas, martirizado, e já elevado à condição de santo quando os textos apareceram, no quinto século. Seu neoplatonismo sempre foi evidente, mas nem por isso deixou de revestir-se de uma autoridade indevida: talvez não seja exagero dizer que os que queriam helenizar o cristianismo prevaleceram sobre os que pretendiam algo ainda mais ousado do que meramente cristianizar o helenismo.

Até onde eu consigo enxergar, o projeto de levar às últimas consequências a radicalidade da Boa Nova nunca foi levado a cabo. Acho que foi Tertuliano (é fácil conferir) que disse “creio porque é absurdo!”, máxima que é muitas vezes entendida como uma apelo à irracionalidade – o que me parece tolo. Mais coerente com a Revelação seria entendê-la como a exigência de uma refundação do pensamento a partir da Boa Nova. Não tenho a menor ideia do quanto isso chegou a ser buscado, mas pelo pouco que sei parece ter prevalecido a ideia não exatamente contrária, mas desviante, de legitimar a Revelação à luz da filosofia já estabelecida.

Li outro dia uma entrevista de Remi Brague onde ao final lhe é feita a inevitável pergunta sobre a proximidade do fim dos tempos, ao que ele respondeu que às vezes tinha a impressão que o Cristianismo ainda não tinha sequer começado. Se por acaso minhas especulações estão corretas, também eu poderia dizer o mesmo.

É inegável que uma filosofia que santifique o corpo, que o coloque no mesmo nível do espírito, tem de ser necessariamente realista, como é o caso de Aristóteles e São Tomás. Por outro lado, a hierarquia angélica idealizada pelo Pseudo-Dionísio e adotada por São Tomás toma a participação na matéria como critério de pureza: os anjos estão acima dos homens porque são puro espírito. Essa hierarquização vai depois espelhar-se no mundo, isto é, na organização da Igreja e da sociedade.

Sobre o livre-arbítrio

Deus criou o mundo de tal modo que ele pudesse acomodar a liberdade – que a nós “aparece” como contingência, a às vezes angustiante contingência de todas as coisas – sem que isso implicasse em perda de Sua onipotência. Ainda que seja possível conceber Deus limitando-se a si mesmo por misericórdia por suas criaturas, essa auto-limitação voluntária (que, se não me engano, é uma tese defendida por alguns teólogos) não me parece necessária.

Um mundo onde Deus já conhecesse previamente a ação de suas criaturas nos conduz inevitavelmente à perversão protestante que divide os homens em winners and loosers, em eleitos e condenados, roubando da ação humana toda espontaneidade, e substituindo-a por uma irracionalidade passional: “Peca, mas peca com fervor” (como se fosse mesmo possível conciliar pecado e fé).

Mas poderia Deus não saber desde as coisas mais triviais – se vou me levantar agora para pegar café ou se terminarei antes este paragráfo – até as mais decisivas – ao final, serei salvo ou perderei o Céu (mesmo que pela via, inevitável a quase todos nós, do Purgatório) aos 45 minutos do segundo tempo?

Essa de fato é uma pergunta vigorosa: pode Deus não saber algo? Antes de responder, mais um café…

Minha resposta é: Ele sabe. Ele sabe tudo. Não no sentido minucioso e entediante de saber cada irrisória atualização de potência de cada uma de suas criaturas, mas no sentido de saber todas as possibilidades que constituem o ser de cada uma delas. Ele conhece todas as escolhas possíveis, Ele as criou, e elas já estão dadas desde o inicio dos tempos e estão sendo renovadas em suas probabilidades a cada instante por um jogo de infinitas remetências mútuas, de modo que cada ação influencia todas as outras, e é por elas influenciadas.

É a Criação: um imenso organismo cuja finalidade só Deus conhece e que os mecanismos humanos imitam com crescente perfeição sem esperar jamais alcançar a mais tímida semelhança.

Há, por isso, analogias possíveis. A mais óbvia e também a mais grosseira, é a do cientista observando o comportamento de seus ratinhos no laboratório para testar suas hipóteses.

Mas há uma diferença fundamental: Deus nos ama. Ele não testa hipóteses. Ele tem um fim que nos escapa e que está se cumprindo desde sempre, mas que envolve e exige como fundamento a liberdade de todas as suas criaturas. Porque é próprio de Deus ser livre

Deus nos ama e torce por nós, e sofre com nossas escolhas, pode antecipá-las, antevê-las, mas dotou-nos do poder de nunca escolher o pecado, por mais tentador e inevitável que ele nos pareça. Esse poder nós temos: o poder de não pecar. Mesmo quando todas as nossas escolhas foram nos conduzindo de pecado mortal em pecado mortal até um estado de impureza que parece nos condenar ao Inferno, mesmo aí a possibilidade do milagre da graça está dada, ao alcance de nossa vontade. Basta-nos pedir. E Deus torce por nós, sofre por nós. E por isso nos concede o amparo extra dos anjos da guarda. Estivesse nosso destino de algum modo determinado, de que nos serviriam eles?

Sempre, a cada alternativa que a vida nos oferece, Deus torce para que prevaleça aquela que nos conduzirá à Salvação. O campo de possibilidades já está dado. Mas a escolha é nossa. Fosse Deus um cientista, qualquer uma de nossas escolhas lhe seria indiferente, pois não escapamos nunca de sua Vontade, porque, repito, as possibilidades todas já estão dadas. Mas, novamente: Deus nos ama. Ele não é portanto indiferente ao destino de sua Criação. Ele tem para ela uma finalidade, que será cumprida em maior ou menor tempo. É só com isso que conta o mal: com a dilatação dos prazos. O fim já está dado. Mas sua consecução não se dá por uma grosseira linha reta mas, em caleidoscópica configuração, viva, contingente, livre – e, portanto, aberta ao milagre, à surpresa, ao inesperado.


Acho possível que alguém enxergue nesse arrazoado algum traço de pelagianismo. Não é essa minha ideia. Acredito que Deus já nos dispôs dos meios positivos para a Salvação, mas nos dotou de uma liberdade – que será em maior ou menor grau intrínseca à Criação – que nos permite escolher a negação, a privação do bem, o mal. Se escolhemos um ou outro caminho, estaremos de acordo com a Vontade de Deus – disso não escapamos. Mas não será senão pela Graça que perseveraremos no caminho da Salvação. E como podemos alcançá-la? Simplesmente pedindo! Esse é o cerne da minha, digamos, tese: os eleitos são os que pedem. Nos Evangelhos – e eu tenho repetido isso toda hora, mas sempre com a mesma perplexidade – Jesus sempre concede o que lhe pedem – porque todo pedido é fruto da fé.


Essencialmente, não muda a percepção de que toda criatura possui um destino cuja a finalidade deveria ser a Salvação. O que muda é que em vez de perceber esse destino com uma linha reta, eu o percebo como um campo de possibilidades já dadas e que serão atualizadas pela vontade da criatura. O que faço é tentar levar às últimas consequências a ideia de potência e ato. A onisciência de Deus é preservada porque ele conhece o campo de possibilidades da criatura, Ele o criou segundo um arranjo de mútuas referências cósmicas inacessível à inteligência de qualquer criatura, homem ou anjo, de tal modo que cada escolha afete a totalidade das coisas e seja por ela afetada, e assim se compensem mutuamente de modo que a finalidade última da Criação não se perca nem desvie.