Perdoar e aprender

“Ils n’ont rien appris ni rien oblier”.

A frase é Talleyrand e se refere aos Bourbons, especificamente ao comportamento político deles no período da Restauração, no século 19, mas pode ser generalizado para alcançar o movimento carlista na Espanha, o integrismo franco-espanhol, toda a crítica liberal de parte da igreja asssociada ao restabelecimento da monarquia na Europa, a Action Française, o franquismo, os movimentos filo-fascistas, e o próprio monarquismo caboclo, tão ao gosto de barnabés e senhoritos.

No período mais intenso da Lava-Jato, a frase foi aṕlicada à reação petista e virou quase lugar-comum. A primeira vez que a li foi no Reinaldo Azevedo e depois passei a tropeçar nela nos mais variados contextos.

Foi traduzida literalmente: “Não aprenderam nada, não esqueceram nada”, o que a torna algo enigmática ou sem sentido.

Por conta de umas reflexões recentes minhas sobre o liberalismo católico, lembrei-me dela e percebi o quanto ela está mal traduzida.

Primeiro de tudo, seria interessante restabelecer o passado contínuo (verbo auxiliar + particípio) ao menos quando a frase estiver sendo usada no contexto histórico em que foi proferida. Talleyrand é um monstro de sobrevivência e pragmatismo: serviu a Luis 16, aos revolucionários de 89, à Napoleão e a quem veio depois, sempre com muito estilo e a dois passos da cadeia. No caso, se refere ao comportamento dos Bourbons, que voltaram com tudo depois da derrota de Napoleão, certos de restabelecer o Ancien Regime.

Talleyrand observa a ação dos Bourbons, a sucessão de atos e decisões, projeta consequências e produz o comentário de olho já na sequência dos fatos. Daí a importância do uso do passado contínuo na tradução. Aliás, se poderia usar o gerúndio no lugar do particípio: “Eles não estão aprendendo nada…”.


Mas isso até é o de menos. O pior é a tradução apressada de “oblier” por esquecer, sem levar em conta que, em português nativo, o sentido de “esquecer” como sinônimo de “perdoar” não é tão comum e se perde inteiramente na frase. Daí um certo ar de enigma em torno dela.

Sem muita preocupação com estilo, a tradução mais clara é “Eles não têm aprendido nada e não perdoam nada”. Uma solução estilosa e eficiente é usar o presente em vez do passado simples para produzir o efeito de ação continuada no tempo: “Eles não aprendem nada e não perdoam nada”.

Fico com essa.

Agora o filé mignon: a relação – não moral (que existe, mas não me interessa aqui), mas epistemológica, entre aprender e perdoar.

É interessante pensar, como regra epistemológica, que é preciso perdoar o passado, se reconciliar com ele, para produzir conhecimento novo, que é o sentido mais nobre de aprender, como sinônimo de apreender, a duplicação do “e” sinalizando um acréscimo idealmente renovador.

Adorei essa ideia.

Fé, niilismo, intolerância e liberdade

Trechos de uma entrevista de Remí Brague:

“A civilização da Europa cristã foi construída por gente cujo objetivo não era de forma alguma construir uma “civilização cristã”. Nós a devemos a pessoas que acreditavam em Cristo, não a pessoas que acreditavam no cristianismo.

Pensem no papa Gregório Magno. O que ele criou – por exemplo, o canto gregoriano – desafiou os séculos. Ora, ele imaginava que o fim do mundo fosse iminente. E, portanto, não teria havido nenhuma “civilização cristã”, por falta de tempo. Ele queria apenas pôr um pouco de ordem no mundo, antes de deixá-lo.

Como quando arrumamos a casa antes de sair de férias. Cristo não veio para construir uma civilização, mas para salvar os homens de todas as civilizações. A chamada “civilização cristã” nada mais é que o conjunto dos efeitos colaterais que a fé em Cristo produziu sobre as civilizações que se encontravam em seu caminho.

Quando se acredita na Sua ressurreição, e na possibilidade da ressurreição de cada homem n’Ele, vê-se tudo de maneira diferente e se age em conseqüência disso, em todos os campos. Mas é preciso muito tempo para se dar conta e para realizar isso nos fatos.

Por isso, talvez, nós estejamos apenas no início do cristianismo.”

* * *

“É verdade que estamos doentes. E os sintomas mais alarmantes podem ser chamados “relativismo” e “niilismo”. Claro, eles têm algo de bom: tornam impossível a intolerância. Não é possível nem morrer nem matar em nome de algo em que só se acredita relativamente, ou no qual não se acredita absolutamente.

O problema é que o niilismo não permite nem viver. Rousseau já o tinha visto bem: o ateísmo não mata os homens, mas impede que eles nasçam. Mas não há necessidade de cristianismo para combater o relativismo ou o niilismo.

No fundo, não há mesmo necessidade de combatê-los: eles se anulam por si sós, como uma planta parasita que acaba por sufocar a árvore da qual vive, seguindo-a na morte.”

* * *

Não nos enganemos sobre o que quer o Deus de Jesus Cristo. Não é o que nós, nós queremos. O que Ele quer não é esmagar seus inimigos. Mas libertá-los do que os torna seus inimigos, ou seja, uma falsa imagem d’Ele, a de um tirano ao qual é preciso submeter-se. Ele, sendo livre, só se interessa pela nossa liberdade.

Procura curá-la. Seu problema é montar um dispositivo que permita ver curada a liberdade ferida dos homens, de forma tal a poderem escolher a vida livremente, contra todas as tentações de morte que carregam por dentro. Os teólogos chamam a esse dispositivo “economia da salvação”. Dela fazem parte as Alianças, a Igreja, os sacramentos, e assim por diante.

O papel das civilizações é indispensável, mas não é o mesmo. E também seus meios são diferentes. Elas devem exercer uma certa coação, física ou social. Já a fé pode apenas exercer uma atração sobre a liberdade, pela majestade de seu objeto.

Talvez se pudesse voltar ao que os papas diziam aos imperadores do Ocidente, a respeito da reforma gregoriana, no século XI: não compete a vocês a salvação das almas, contentem-se em realizar seu ofício da melhor maneira possível. Façam reinar a paz.”