Metafísicas, não epistemológicas

Descartes nomeou as suas meditações de metafísicas, mas a crítica trivial as lê como se fossem epistemológicas. Há, de fato, uma região do pensamento compartilhada pela metafísica, a ontologia, a teologia, a psicologia, a epistemologia ou gnosiologia, e até a física. É certo também que considerações metafísicas têm por isso consequências epistemológicas, psicológicas, etc.

Daí a confundir as abordagens feitas a partir desses elementos comuns vai uma distância enorme. Criticar a partir de um ponto de vista epistemológico uma abordagem que se pretende metafísica é mais do que um mero erro: é também uma grosseria.

Isso não significa negar as explícitas intenções epistemológicas de Descartes e a revolução que seu método de matematização da ciência irá produzir. Nesse sentido, as Meditações podem ser entendidas como a busca de um fundamento metafísico para o método. Até aí, tudo bem.

Mas, nesse caso, a matemática deve ser entendida como mathesis universalis, isto é, com a linguagem universal, e, portanto, comum, que faz a ligação entre o Deus Criador e o Homem no entendimento de toda a Criação. Dá-se assim seguimento ao antiquíssimo projeto que é pitagórico-platônico-aristotélico-neoplatônico-escolástico-e-etc.

Por outro lado, o projeto tem também obviamente alcance ontológico e teológico: demonstrar o fundamento da verdade do pensamento, o nexo de verdade que une mente e mundo, coincide com demonstrar a verdade de um Deus Criador, Vivo e Verdadeiro.

Por isso, contestar a catolicidade do pensamento de Descartes (a despeito de seus erros) é quase uma contradição, ainda que se possa desprezar seus supostos efeitos. Também me parece uma tolice duvidar do cristianismo de Descartes, atribuindo-lhe uma a intenção de ruptura radical, ainda que seja inegável a novidade de suas idéias.

Perdoar e aprender

“Ils n’ont rien appris ni rien oblier”.

A frase é Talleyrand e se refere aos Bourbons, especificamente ao comportamento político deles no período da Restauração, no século 19, mas pode ser generalizado para alcançar o movimento carlista na Espanha, o integrismo franco-espanhol, toda a crítica liberal de parte da igreja asssociada ao restabelecimento da monarquia na Europa, a Action Française, o franquismo, os movimentos filo-fascistas, e o próprio monarquismo caboclo, tão ao gosto de barnabés e senhoritos.

No período mais intenso da Lava-Jato, a frase foi aṕlicada à reação petista e virou quase lugar-comum. A primeira vez que a li foi no Reinaldo Azevedo e depois passei a tropeçar nela nos mais variados contextos.

Foi traduzida literalmente: “Não aprenderam nada, não esqueceram nada”, o que a torna algo enigmática ou sem sentido.

Por conta de umas reflexões recentes minhas sobre o liberalismo católico, lembrei-me dela e percebi o quanto ela está mal traduzida.

Primeiro de tudo, seria interessante restabelecer o passado contínuo (verbo auxiliar + particípio) ao menos quando a frase estiver sendo usada no contexto histórico em que foi proferida. Talleyrand é um monstro de sobrevivência e pragmatismo: serviu a Luis 16, aos revolucionários de 89, à Napoleão e a quem veio depois, sempre com muito estilo e a dois passos da cadeia. No caso, se refere ao comportamento dos Bourbons, que voltaram com tudo depois da derrota de Napoleão, certos de restabelecer o Ancien Regime.

Talleyrand observa a ação dos Bourbons, a sucessão de atos e decisões, projeta consequências e produz o comentário de olho já na sequência dos fatos. Daí a importância do uso do passado contínuo na tradução. Aliás, se poderia usar o gerúndio no lugar do particípio: “Eles não estão aprendendo nada…”.


Mas isso até é o de menos. O pior é a tradução apressada de “oblier” por esquecer, sem levar em conta que, em português nativo, o sentido de “esquecer” como sinônimo de “perdoar” não é tão comum e se perde inteiramente na frase. Daí um certo ar de enigma em torno dela.

Sem muita preocupação com estilo, a tradução mais clara é “Eles não têm aprendido nada e não perdoam nada”. Uma solução estilosa e eficiente é usar o presente em vez do passado simples para produzir o efeito de ação continuada no tempo: “Eles não aprendem nada e não perdoam nada”.

Fico com essa.

Agora o filé mignon: a relação – não moral (que existe, mas não me interessa aqui), mas epistemológica, entre aprender e perdoar.

É interessante pensar, como regra epistemológica, que é preciso perdoar o passado, se reconciliar com ele, para produzir conhecimento novo, que é o sentido mais nobre de aprender, como sinônimo de apreender, a duplicação do “e” sinalizando um acréscimo idealmente renovador.

Adorei essa ideia.