Saindo da caverna

O que mais me intriga na teoria abstrativa é que de cara a abstração dos dados sensíveis não nos dá mais do que uma sombra, um contorno genérico. O que de fato nos atrai, mobiliza, interessa – a coisa em si, para provocar os kantianos que parecem chamar assim exatamente a essa sombra – fica para trás, na conta da contingência e da sensibilidade. O mito da caverna, com seu trágico teatro de sombras, não é fortuito.

Esperando capturar a essência das coisas, acaba-se por desprezar o que nelas é propriamente a vida; pensando resgatar o eterno, acaba-se aprisionado pela morte, ou, ao menos, para não soar tão dramático, pela não-vida.

A solução genial de Aristóteles para contornar o problema herdado de Platão é introduzir o conceito de ato/potência como uma segunda camada conceitual que, no interior escuro dessa sombra, introduz o conteúdo indeterminado da potência.

É a potência que dá vida à noção de essência e a integra à realidade como uma dimensão presente: parafraseando Ortega eu sou a minha potência em face das circunstâncias presentes.

Subitamente, o que antes era uma mera sombra vazia de relevância, ganha um conteúdo indeterminado, uma quase-infinito fechado pelos contornos de uma figura, indissociável do objeto presente que constitui. Não se trata então de procurar o que está por trás das coisas, mas o que está dentro delas. Não estamos mais nas trevas, mas cegos de tanta luz: as criaturas não são simulacros, mas abismos de verdade.

Sair da caverna de fato é desprezar a sombra como imagem da realidade.

A abstração em si é a negação do que importa: a singularidade de todas as criaturas. E negá-la é tornar as coisas a presa apetitosa da vontade de poder que resultou da Queda. Não as olhamos mais com um olhar singularizante e amoroso, mas as reduzimos a meros exemplares instrumentalizáveis segundo a minha vontade – vontade de poder que é o contrário do amor pregado por Jesus.

Porque é no sensível, no singular, no corpo – a pedra rejeitada – que de fato a alma se expõe como pessoa: a pessoa está em seu corpo, mas a abstração não nos diz nada sobre ela.