Metafísicas, não epistemológicas

Descartes nomeou as suas meditações de metafísicas, mas a crítica trivial as lê como se fossem epistemológicas. Há, de fato, uma região do pensamento compartilhada pela metafísica, a ontologia, a teologia, a psicologia, a epistemologia ou gnosiologia, e até a física. É certo também que considerações metafísicas têm por isso consequências epistemológicas, psicológicas, etc.

Daí a confundir as abordagens feitas a partir desses elementos comuns vai uma distância enorme. Criticar a partir de um ponto de vista epistemológico uma abordagem que se pretende metafísica é mais do que um mero erro: é também uma grosseria.

Isso não significa negar as explícitas intenções epistemológicas de Descartes e a revolução que seu método de matematização da ciência irá produzir. Nesse sentido, as Meditações podem ser entendidas como a busca de um fundamento metafísico para o método. Até aí, tudo bem.

Mas, nesse caso, a matemática deve ser entendida como mathesis universalis, isto é, com a linguagem universal, e, portanto, comum, que faz a ligação entre o Deus Criador e o Homem no entendimento de toda a Criação. Dá-se assim seguimento ao antiquíssimo projeto que é pitagórico-platônico-aristotélico-neoplatônico-escolástico-e-etc.

Por outro lado, o projeto tem também obviamente alcance ontológico e teológico: demonstrar o fundamento da verdade do pensamento, o nexo de verdade que une mente e mundo, coincide com demonstrar a verdade de um Deus Criador, Vivo e Verdadeiro.

Por isso, contestar a catolicidade do pensamento de Descartes (a despeito de seus erros) é quase uma contradição, ainda que se possa desprezar seus supostos efeitos. Também me parece uma tolice duvidar do cristianismo de Descartes, atribuindo-lhe uma a intenção de ruptura radical, ainda que seja inegável a novidade de suas idéias.