Fé, niilismo, intolerância e liberdade

Trechos de uma entrevista de Remí Brague:

“A civilização da Europa cristã foi construída por gente cujo objetivo não era de forma alguma construir uma “civilização cristã”. Nós a devemos a pessoas que acreditavam em Cristo, não a pessoas que acreditavam no cristianismo.

Pensem no papa Gregório Magno. O que ele criou – por exemplo, o canto gregoriano – desafiou os séculos. Ora, ele imaginava que o fim do mundo fosse iminente. E, portanto, não teria havido nenhuma “civilização cristã”, por falta de tempo. Ele queria apenas pôr um pouco de ordem no mundo, antes de deixá-lo.

Como quando arrumamos a casa antes de sair de férias. Cristo não veio para construir uma civilização, mas para salvar os homens de todas as civilizações. A chamada “civilização cristã” nada mais é que o conjunto dos efeitos colaterais que a fé em Cristo produziu sobre as civilizações que se encontravam em seu caminho.

Quando se acredita na Sua ressurreição, e na possibilidade da ressurreição de cada homem n’Ele, vê-se tudo de maneira diferente e se age em conseqüência disso, em todos os campos. Mas é preciso muito tempo para se dar conta e para realizar isso nos fatos.

Por isso, talvez, nós estejamos apenas no início do cristianismo.”

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“É verdade que estamos doentes. E os sintomas mais alarmantes podem ser chamados “relativismo” e “niilismo”. Claro, eles têm algo de bom: tornam impossível a intolerância. Não é possível nem morrer nem matar em nome de algo em que só se acredita relativamente, ou no qual não se acredita absolutamente.

O problema é que o niilismo não permite nem viver. Rousseau já o tinha visto bem: o ateísmo não mata os homens, mas impede que eles nasçam. Mas não há necessidade de cristianismo para combater o relativismo ou o niilismo.

No fundo, não há mesmo necessidade de combatê-los: eles se anulam por si sós, como uma planta parasita que acaba por sufocar a árvore da qual vive, seguindo-a na morte.”

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Não nos enganemos sobre o que quer o Deus de Jesus Cristo. Não é o que nós, nós queremos. O que Ele quer não é esmagar seus inimigos. Mas libertá-los do que os torna seus inimigos, ou seja, uma falsa imagem d’Ele, a de um tirano ao qual é preciso submeter-se. Ele, sendo livre, só se interessa pela nossa liberdade.

Procura curá-la. Seu problema é montar um dispositivo que permita ver curada a liberdade ferida dos homens, de forma tal a poderem escolher a vida livremente, contra todas as tentações de morte que carregam por dentro. Os teólogos chamam a esse dispositivo “economia da salvação”. Dela fazem parte as Alianças, a Igreja, os sacramentos, e assim por diante.

O papel das civilizações é indispensável, mas não é o mesmo. E também seus meios são diferentes. Elas devem exercer uma certa coação, física ou social. Já a fé pode apenas exercer uma atração sobre a liberdade, pela majestade de seu objeto.

Talvez se pudesse voltar ao que os papas diziam aos imperadores do Ocidente, a respeito da reforma gregoriana, no século XI: não compete a vocês a salvação das almas, contentem-se em realizar seu ofício da melhor maneira possível. Façam reinar a paz.”