A existência como mal-entendido

Continuação do post anterior: A singularidade como defeito

A mesma analogia da impressão serve para o esquema gnosiológico kantiano.
Ou, dito de outro modo, Kant serviu-se tanto de de Platão, quanto de Aristóteles, mas esvaziando-os de todo o seu realismo – tanto no sentido medieval, no caso de Platão, quanto no sentido moderno, no caso de Aristóteles – para criar o que eu chamo ironicamente de uma teoria do desconhecimento.

Em Kant, as ideias ou formas já não interagem com a matéria-prima para dar existência às coisas do mundo. Ao contrário, elas existem na mente humana primariamente como formas da sensibilidade que moldam os dados sensíveis, que fazem o papel da matéria-prima platônica, para dar-lhes a configuração espaço-temporal com que nos aparecem. Ou seja, a forma espaço-temporal que as define como coisas autônomas e do mundo, na verdade, sã uma mera derivação mental.

Não há, pois, um mundo de coisas autônomas que mantêm com o homem uma relação de verdade, mas meras representações mentais que não têm qualquer relação fundamental, ontológica com a realidade: a coisa em si é inacessível.

Há aqui uma inversão brutal: o que era realidade extramental, é agora uma realidade mental. Não há mais um mundo de formas puras que servem de “molde” para os entes singulares ou qualquer outra solução derivada dessa formulação primordial, como aquela proposta por Aristóteles.

Mesmo sua realidade espaço-temporal, aquilo que seria a marca de sua existência não é senão um mal-entendido, digamos assim. Pois, para Kant, espaço e tempo não são realidades extramentais, mas exatamente o contrário: são formas da sensibilidade responsáveis por “formatar” numa aparência espaço-temporal os dados que nos chegam do mundo pelos sentidos.

Já não existe então nenhuma relação entre o que nos vai por dentro e o que está lá fora. Não há sequer espaço para o erro ou para a interpretações, “diferentes visões do mundo”, pois já não se trata de alguma forma de relativismo, ainda que possa servir-lhe de fundamento. Falamos de algo genuinamente aterrador, como num um filme de terror gnóstico a la Matriz: a mente humana descola-se da realidade e a existência nem chega ser uma ilusão, mas um mal-entendido insolúvel.

Pois, se nessa primeira formatação, a internalização da forma espaço-temporal encarrega-se de nos alienar do mundo, digamos, “em geral”, a interiorização das categorias aristotélicas produzem, numa segunda formatação nos alienam dos dados singularizantes das coisas.

Mais assustador é que toda essa confusão, que subverte Platão e Aristóteles, e misture Hume, Rousseau e Newton, tem origem num falso problema: a possibilidade de conhecimentos sintéticos a priori.