A singularidade como defeito

Uma bela analogia da relação entre as ideias platônicas e os seres do mundo é com a prensa de Gutemberg. Imagine que os caracteres móveis de chumbo são as ideias platônicas. A tinta que sobre eles se derrama, a matéria-prima. E as folhas impressas, os seres do mundo. Mas, ao contrário do mundo digital, onde os arquivos são clones, isto é, reproduções perfeitas e indistinguíveis do original, as folhas impressas na prensa, assim como os seres do mundo na teoria platônica, são cópias imperfeitas, singularizadas pelas circunstâncias: a quantidade de tinta no momento da impressão, a maior ou menor limpeza dos tipos, a qualidade da folha que recebe a impressão, um fragmento qualquer que num dado instante se interponha entre os tipos e o papel, e por aí vai.

E aqui vejo um problema em Platão: a singularidade é um defeito. Ou, mais genericamente: a existência (que é sempre singular) é um defeito. A consequência mais evidente é um desprezo pelos seres em geral e pela vida em particular.

Esse desprezo dá fundamento a todo tipo de totalitarismo e a um elitismo injustificável. Ou seja, o confinamento da político ao espaço exíguo entre algum tipo de tirania e o niilismo violento e anárquico.

Na arte, se terá ou um abstracionismo frio, que pretenderá aludir às formas puras, ou a “arte engajada”, cuja forma mais aceitável é a publicidade explícita.

Acredito que por isso é possível falar em Aristotelismo de fato, porque me parece evidente o esforço de Aristóteles de “salvar” o platonismo naquilo que ele trazia de novidade para uma filosofia do Ser.

Mas como fazer uma filosofia do Ser desprezando os entes? Essa talvez fosse a questão que Aristóteles se impõe. E sua solução é genial, porque não destrói o platonismo, mas o corrige e amplia.

Continua no post seguinte: A existência como mal-entendido