A ideia de absoluto

“O absoluto é inconcebível”. Essa ideia resume o argumento ontológico de Santo Anselmo, aquele que Jean-Luc Marion diz nada ter de ontológico na sua origem exatamente porque se coloca fora do alcance do Ser.

Mas, se a gente medita sobre essa ideia, logo descobre que ela tem características singulares. A primeira salta aos olhos: de onde me vem a ideia de absoluto? Nada na minha experiência imediata refere-se a essa ideia, porque tudo à minha volta é finito e contingente. Tampouco posso sequer imaginar que da experiência do finito e contingente possa, por oposição, tirar a ideia de absoluto.

Simplesmente porque o absoluto é de outra ordem, de outro grau, com nas equações da matemática. Portanto, sem nenhuma relação imediata com o que existe na ordem do finito e contingente. Ou para ficar nos limites da lógica elementar: do menos não se pode tirar o mais. Ou seja, do finito não se pode tirar o infinito. (Mas o inverso é possível e, ao longo do desenvolvimento da ideia de absoluto, se revelará verdadeiro).

Isso nos obriga a, de imediato, postular a hipótese de ao menos uma ideia inata que seria justamente a ideia do absoluto, ou de Deus. Essa ideia se reforçará se for possível demonstrar que ela é condição de possibilidade de todas as outras ideias (o que eu acho que é possível).

No entanto, a ninguém parece estranha a ideia de absoluto, que na linguagem comum é tomada por sinônimo de superior, grandioso, inacessível. E aí, se nos pomos a pensar no outro termo da expressão “O absoluto é inconcebível” nos deparamos com o mistério: por que inconcebível se de fato o concebo?

Mas tudo só piora por que a pergunta se desdobra: como posso conceber a ideia de inconcebível? Por definição meramente formal, o inconcebível não poderia ser nem sequer… concebido. Mesmo que se apele para uma distinção conceitual entre pensar e conceber não consigo ver como o mistério se dissipe.

Talvez porque o tempo todo lidemos com ideias aparentemente inconcebíveis, mas que por meio de cálculos e argumentos acabam por se revelar perfeitamente pensáveis, ainda que na maior parte dos casos que me vêm à cabeça, caiba a pergunta: concebíveis e pensáveis para quem? A alta matemática, por exemplo, já me parece estar justamente em outro grau da realidade (mais ou menos como disse acima do próprio absoluto), e seus conceitos são pensáveis, sim, mas por uns poucos.

Volto então ao começo: como posso ter essa ideia paradoxalmente tão clara na minha cabeça: “o absoluto é inconcebível?”. E quando digo “clara” quero dizer que claramente concebo que o absoluto não é concebível…

Santo Anselmo a formula mais ou menos assim o conceito: “Deus é aquele de quem nada maior pode ser pensado”. A tradução do latim me parece meio chata porque produz essa frase que soa tão mal formulada. E para piorar, Marion, no artigo lembrado no início, fala da importância capital para a consistência do argumento que a passagem de nada maior para nada melhor tem para a perfeita compreensão do texto anselmiano.

Grosseiramente, o desenvolvimento do argumento é mais ou menos o seguinte: se penso em Deus, não posso deixar de pensá-lo como inconcebível, no sentido, de que nada maior ou melhor pode ser pensado. Ou seja, é um conceito paradoxalmente aberto. Deus não é objeto, mas horizonte. Um pano de fundo sobre o qual os objetos podem então aparecer. Estou me antecipando um pouco nas consequências da ideia, as é como se, ao mesmo tempo, todos os objetos apontassem para o absoluto, e especialmente aqueles cuja grandeza lhe serve de analogia: o céu, o mar. O que, de certo modo, é o ponto de partida de uma teologia negativa – ou a exaustiva enumeração de tudo que não é Deus.

A primeira consequência da análise dessa ideia (que repito, parece inata) é a impossibilidade do panteísmo e, ao mesmo tempo, a sacralização das criaturas como Criação de um Criador que está e não está neste mundo: Deus é de outra ordem ou grau. É nesse sentido que podemos dizer que “Deus está no Céu” ou “nos Céus” (afinal, “a casa de meu Pai tem muitas moradas”). É interessante pensar que também as palavras estão e não estão no mundo – e Deus é também Verbo.

(Continuo depois…)