O heresiarca involuntário

Passei por heresiarca sem querer. Temendo por minha alma, amigos me avisaram que eu podia estar desafiando a doutrina da Igreja num texto que publiquei no Café Impresso, em que conjecturo que aos condenados ao Inferno será concedido o esquecimento, quando a doutrina afirma que o Inferno é eterno.

Primeiro de tudo: não sou teólogo. Logo, o que faço é literatura, não é teologia. Mas um escritor (eu preferiria me descrever como um “descritor”, mas isso é outra conversa…) também produz seus textos fundado em argumentos, ou melhor, em cadeias lógicas de causa e consequência. Sua percepção é poética, isto é, mais aberta à analogia. É, portanto, muito mais especulativa, mais livre dos limites necessários de uma ciência específica. O escritor está mais ligado ao senso comum, ao realismo cotidiano, comezinho, ao mesmo tempo que, com suas metáforas, ele amplia as fronteiras da realidade. O poeta é, digamos, o bandeirante, enquanto o cientista é o colonizador.

Feito o nariz de cera, prossigamos. Começo pela percepção mais primária, mais infantil até em sua inconsistência: a ideia de um Inferno eterno depois (e isso faz toda a diferença) do Juízo Final concomitante, simultâneo, paralelo ao Céu eterno, quase como um complemento da Glória, é uma ideia desagradável.

Uma coisa me impressiona nos Evangelhos: Jesus sempre atende quem recorre a Ele com fé. Isto é, acreditando que Ele é quem diz ser. A ninguém Jesus disse não. Até os demônios foram atendidos quando pediram para ser “transferidos” para os porcos de uma manada.

E o que querem os pecadores? O perdão ou o esquecimento. Aquele que se arrependeu genuinamente quer o perdão. Aquele que se acha justificado em seu pecado quer o esquecimento, seja no sentido da anistia, seja no sentido de ser deixado de lado.

Façamos agora, um salto. O que é o pecado? O pecado é o mal? E o que é o mal? Neste momento, entra em cena Santo Agostinho com sua definição do mal: o mal é a privação d o bem. Com isso ele está dizendo que o mal nao tem uma densidade ontológica: ele é uma negação.

Quanto mais penso nessa definição, mais admirado fico. Em alcance, originalidade, simplicidade e eficácia ela rivaliza com o conceito duplo de ato/ potência e Aristóteles. Por outro, e muito mais importante do que rivalizar, ele o complementa. Os dois conceitos combinados (ato/ potência + mal como privação) criam um campo de reflexão, um ambiente conceitual que oferece a abstração de princípios capazes de dar conta da realidade natural e sobrenatural de um modo muito mais completo.

Agora tentemos extrair dessa ideia de mal o destino do Inferno depois do Juízo.

Enfatizo o “depois” porque, se o Inferno é eterno, então ele já é eterno, e sempre foi eterno, até o Fim dos Tempos. E talvez devamos entender essa expressão “fim dos tempos” num sentido literal e forte: depois do Juízo, todos os tempos que resultaram do pecado original – e aí poderíamos incluir a eternidade do Inferno – serão finalizados, e toda a Criação será restabelecida na Glória do Senhor.

Enfim, o Inferno não começará a ser eterno em algum momento, e quem está no Inferno  vive o Inferno como eternidade, e está lá há uma eternidade. Mas nume eternidade sem Deus e sem Glória. Na analogia muito fraca: estar no Inferno por um segundo, seria nunca ter deixado de estar lá.

Voltemos então à ideia de mal. Se o mal é privação (do bem), logo o mal não é algo, no sentido forte, ontológico. O mal portanto é nada. O pecador que pratica o mal por vontade deliberada e sem arrependimento deseja o mal. Portanto, ele deseja a privação do bem, isto é, nada. Não sei se vale a pena entrar agora na questão da ontologia desse nada que é o mal.

Já vimos que Jesus, que é Deus, não recusa às criaturas o elas lhe pedem. Então é possível supor que no Dia do Juízo aqueles que desejam o nada, receberão o nada. E desses talvez se possa dizer, numa paráfrase: do nada vieste, ao nada retornarás.

O esquecimento a que me refiro é esse “retorno ao nada”. Certa vez, conversando com um padre amigo a propósito da conferência que fiz sobre o idealismo kantiano, conjecturamos o que seria para uma criatura ser esquecido por Deus. A arqueologia de vez em quando se depara com objetos cujo significado se perdeu. E por que se perdeu? Porque não se tem mais memória de sua finalidade ou, dito de outro, modo de sua essência artificial de objeto criado por mão humana. Nesse caso, o que aconteceria com uma criatura cuja essência fosse esquecida por Deus? Retornaria ao nada, concluímos. Isto é, ela deixaria de ter existido! Imaginamos então que na prática todas as menções a essa criatura – digamos, por exemplo, a rosa – seriam apagadas da Natureza, dos livros, da memória dos homens e dos anjos. E quem sabe às vezes aparecesse em sonho a algum vivente que dela depois de acordado não se recordaria.

Enfim, é com esse esquecimento misericordioso, justo e desejado que os pecadores do Inferno será contemplados. Não sei se é assim, não afirmo que o seja. Mas gostaria muito que fosse.