O argumento ontológico de Santo Anselmo

O texto a seguir foi preparado para uma palestra que dei em novembro de 2017 a um grupo de amigos reunidos na Casa do Minho para as Conferências São Miguel, regularmente realizadas pela Permanência. A ideia inicial é que ele fosse em seguida publicado na Revista Permanência, mas eu recuei, porque não me senti satisfeito com o resultado. Hoje, dois anos depois, relendo-o, acredito que ele possa ser útil como uma introdução ao Proslógio de Santo Anselmo. Essa insatisfação, porém, me levou a uma série de leituras, que agora começarei a organizar em novos textos que, espero, ajudem a esclarecer a questão da aprioridade da argumentação de Santo Anselmo.
Veremos.


INTRODUÇÃO

Inicialmente pensava neste encontro tratar do argumento ontológico de Santo Anselmo e do argumento cosmológico de São Tomás.

Minha intenção era dar continuidade ao encontro anterior, quando conversamos sobre a noção de essência e penso ter conseguido mostrar, o quanto essa noção é, no plano epistemológico, natural e, ao mesmo tempo, o quanto ela é central para a filosofia do Ocidente, isto é, para uma filosofia do Ser.

A ideia de trazer os dois argumentos me parecia oportuna porque poderíamos passar do plano epistemológico para o plano propriamente teológico.

Esse projeto se revelou impraticável logo na leitura do primeiro parágrafo do Proslógio de Santo Anselmo, onde o argumento ontológico é apresentado pela primeira vez.

Porque fiquei encantado com a qualidade literária do texto.

A despeito da evidente influência de Santo Agostinho, a beleza do texto se impõe por si mesma. Não é uma beleza gratuita, caprichosa, mas inteiramente subordinada ao projeto do texto.

Mas antes de prosseguir, quero rapidamente situar Santo Anselmo no plano histórico.

PLANO HISTÓRICO

Ele nasceu em 1033, na Aosta, região próxima de Turim, na Itália, nas fronteiras da França e da Suíça. De família rica, cedo sentiu-se atraído pela vida religiosa, mas como São Tomás, enfrentou a oposição familiar. Aos 23 anos, depois da morte da mãe, decide sair numa viagem sem rumo pela Europa, acompanhado apenas de um servo, e aos 27 anos, ingressa no mosteiro beneditino de Bec. Sua ascensão na hierarquia monástica é rápida: em 1063, torna-se prior, e, quinze anos depois, em 1079, abade do mosteiro, onde escreverá a maior parte de suas obras e ganhará fama como teólogo, administrador e homem santo.


Tais qualidades acabarão por obrigá-lo a abandonar a contragosto a vida monástica em 1093, para se tornar arcebispo de Cantuária e primaz da Inglaterra, com a tarefa de enfrentar ninguém menos que o rei inglês William (Guilherme) II, o Conquistador, e seu sucessor, Henrique I, na espinhosa questão das investiduras. Serão os últimos anos de Santo Anselmo, que jamais voltará a Bec e morrerá em 1109. Mas o seu legado conseguiu adiar por quase quinhentos anos o rompimento da igreja inglesa com Roma.

Reparem que Santo Anselmo nasce em 1033 e morre em 1109. É, portanto, um homem do século 11, que 1) nasceu sob o clima do que acredito poder chamar de “pós-milenarismo”, 2) presenciou o Cisma do Oriente, em 1054, 3) a conquista normanda da Inglaterra, em 1066, e 4) enfrentou pessoalmente a questão das investiduras, que confrontava diretamente o poder de Roma. Além disso, como abade de Bec, lutou para manter a autonomia do mosteiro em relação às autoridades eclesiásticas e seculares.

O que chamei de pós-milenarismo é a atmosfera que suponho tenha se criado na Europa cristã depois da passagem do milênio. Havia uma expectativa de que a virada do milênio traria o fim do mundo. Como nada aconteceu, o argumento cético deve ter se reforçado enormemente. Por outro lado, os apocalípticos devem ter buscado amparo em argumento como erros de cálculo, de interpretação, etc.

O Cisma do Oriente, em 1054, deve ter reforçado o argumento milenarista. De qualquer modo, imagino que o trauma do Cisma não deva ter sido pequeno, sobretudo entre santos, místicos e teólogos. A questão das investiduras deve ter encontrado solo fértil para crescer num ambiente tão propício à rebeldia e ao ceticismo, que também deve ter se refletido na filosofia, na teologia, e nos espíritos de um modo geral.

Então não deve ser por acaso que o alvo, digamos assim, do Proslógio é aquele que Santo Anselmo chama de “o insensato”, que no salmo 13 afirma que Deus não existe.

“Diz o insensato em seu coração: Não há Deus. Corromperam-se os homens, sua conduta é abominável, não há um só que faça o bem.”

PLANO LITERÁRIO

É a ele que Santo Anselmo se dirige, não sem antes, em uma das mais belas passagens da literatura, especialmente da literatura filosófica, “justificar”, como veremos, o ceticismo do insensato.

Mas ainda que o alvo de Santo Anselmo seja o insensato, seu público é outro. Como Santo Anselmo explica na abertura, ele escreve para monges, gente que vive num ambiente onde Deus é experimentado muito mais como um fato sobrenatural e místico do que como mera necessidade lógica. Ou seja, a eficiência do texto pressupõe esse ambiente. Não que ele não possa ser reduzido à sua estrutura lógica sem perda de consistência, mas acho inegável que toda sua beleza, todo seu encanto e, volto a dizer, toda a sua eficácia, supõe esse ambiente, essa imersão. É, enfim, um texto místico para místicos.

É, com eu já disse, um texto de intensa beleza, onde se percebe, sim, a influência estilística e intelectual de Santo Agostinho, sem que isso de modo algum diminua a originalidade literária do autor, que, em contraste com Agostinho, é muito mais conciso, por exemplo. Há também aquele traço comum aos textos místicos, de se equilibrar entre paradoxos nos limites da linguagem, algo que a tradição faz remontar a Dionísio, o Areopagita.

A beleza mística, ao mesmo tempo doce e dramática – e eu diria até “romântica”, se não fosse um anacronismo e quase uma heresia – contrasta vigorosamente com a resposta que Anselmo dará ao monge Gaunilo que, com argumentos de uma inconsistência vexatória, quis refutar o que Kant consagrou sob o nome de “argumento ontológico”.

Enfim no Proslógio, Santo Anselmo, que confessa na abertura não ter sequer pretendido assinar o livro, e só o fez por imposição do bispo, se permite escrever em termos sutilíssimos, em que a alta qualidade poética e literária recobre uma argumentação lógica bastante precisa.

Antes de apresentar o argumento propriamente, mergulhemos um pouco na beleza do texto de Santo Anselmo, mais precisamente nos primeiros parágrafos do primeiro capítulo do Proslógio, intitulado “Exortação à contemplação de Deus”.

Eia, vamos, homem! Foge por um pouco às tuas ocupações, esconde-te dos teus pensamentos tumultuados, afasta as tuas graves preocupações e deixa de lado as tuas trabalhosas inquietudes. Busca, por um momento, a Deus, e descansa um pouco nele. Entra no esconderijo da tua mente, aparta-te de tudo, exceto de Deus e daquilo que pode levar-te a ele, e, fechada a porta, procura-o. Abre a ele todo o teu coração e dize-lhe: “Quero teu rosto; busco com ardor teu rosto, ó Senhor.””

Reparem que, à parte a poesia do texto, Anselmo nos convida a buscar introspectivamente a ideia que temos de Deus, “aquilo que pode nos levar a Ele”. É fundamental perceber isso – e levar a orientação a sério.

Sigamos:

Eis-me, ó Senhor meu Deus, ensina, agora, ao meu coração onde e como procurar-te, onde e como encontrar-te. Senhor, se não estás aqui, na minha mente; se estás ausente, onde poderei encontrar-te? Se tu estás por toda parte, por que não te vejo aqui?”

Essa pergunta é essencial: “Se estás em toda parte, por que não te vejo aqui?”. É preciso enfatizar o verbo “ver” neste caso. De todo modo, acredito que se deva interpretar o texto da seguinte maneira: “Sei que estás em mim, mas não te vejo. Por quê?”

Um pouco adiante, Santo Anselmo submerge num lamento que é das coisas mais lindas que já li, e me lembrou o famoso monólogo de Hamlet:

Oh! Quão miserável é a sorte do homem que perdeu aquilo por que foi feito! Oh! Quão dura e cruel aquela queda, pela qual tantas coisas ele perdeu! E o que encontrou? Que teve em troca? Que lhe ficou? Perdeu a felicidade para a qual foi criado e encontrou a miséria para a qual certamente não foi feito. Afastou-se daquele sem o qual não há felicidade e ficou com aquilo que é, por si, mísero e caduco. Antes o homem alimentava-se com o pão dos anjos e agora, faminto, come o pão da dor, que sequer conhecia. Oh! Luto comum dos homens, pranto universal dos filhos de Adão! Este tinha fartura de tudo e nós morremos de fome. Ele era rico e nós somos mendigos. Ele tinha a felicidade e a perdeu miseravelmente, e nós vivemos infelizes, tudo desejando e, indigentes, ficamos de mãos vazias! Por que ele, desde que o podia facilmente, não nos conservou um bem tão grande, cuja perda havia de nos acarretar tantas aflições? Por que nos tirou a luz para que ficássemos nas trevas? Por que nos privou da vida para nos condenar à morte? Miseráveis!, de onde fomos expulsos e para onde fomos impelidos! De onde fomos arremessados e em que abismo fomos sepultados? Passamos da pátria para o desterro, da visão de Deus para a nossa cegueira, da alegria pela imortalidade para o horror da morte! Que mudança funesta! De tão grande bem para tão grande mal! Perda lastimável, dor profunda, terrível fardo de misérias.”

O lamento segue, belíssimo, mas termina com uma nota positiva, que anima toda a meditação a seguir:

Ó Senhor, reconheço, e rendo-te graças por ter criado em mim esta tua imagem a fim de que, ao recordar-me de ti, eu pense em ti e te ame. Mas, ela está tão apagada em minha mente por causa dos vícios, tão embaciada pela névoa dos pecados, que não consegue alcançar o fim para o qual a fizeste, caso tu não a renoves e a reformes. Não tento, ó Senhor, penetrar a tua profundidade: de maneira alguma a minha inteligência amolda-se a ela, mas desejo, ao menos, compreender a tua verdade, que o meu coração crê e ama. Com efeito, não busco compreender para crer, mas creio para compreender. Efetivamente creio, porque, se não cresse, não conseguiria compreender.”

É a perfeita síntese do pensamento de Santo Anselmo. Temos uma imagem de Deus impressa em nós. Essa imagem pode ser traduzida num conceito, mas não se revela plenamente como ideia, algo que, por conta de nossa natureza corrompida pelo pecado, só nos será possível, se alcançarmos, pela graça, a visão beatífica depois da morte. Mas esse conceito, esclarecido e amplificado pela fé, nos garante uma compreensão suficiente de Deus e, consequentemente, dos homens e do mundo.

Nesse sentido, no capítulo 2, “Que Deus existe verdadeiramente”, Santo Anselmo, dirigindo-se ao insensato, pode dizer:

Então, ó Senhor, tu que nos concedeste a razão em defesa da fé, faze com que eu conheça, até quanto me é possível, que tu existes assim como acreditamos, e que és aquilo que acreditamos. Cremos, pois, com firmeza, que tu és um ser do qual não é possível pensar nada maior. Ou será que um ser assim não existe porque “o insipiente disse, em seu coração: Deus não existe”? [Sl 13,1] Porém, o insipiente, quando eu digo: “o ser do qual não se pode pensar nada maior”, ouve o que digo e o compreende. Ora, aquilo que ele compreende se encontra em sua inteligência, ainda que possa não compreender que existe realmente. Na verdade, ter a idéia de um objeto qualquer na inteligência, e compreender que existe realmente, são coisas distintas. Um pintor, por exemplo, ao imaginar a obra que vai fazer, sem dúvida, a possui em sua inteligência; porém, nada compreende da existência real da mesma, porque ainda não a executou. Quando, ao contrário, a tiver pintado, não a possuirá apenas na mente, mas também lhe compreenderá a existência, porque já a executou. O insipiente há de convir igualmente que existe na sua inteligência “o ser do qual não se pode pensar nada maior”, porque ouve e compreende essa frase; e tudo aquilo que se compreende encontra-se na inteligência.

Mas “o ser do qual não é possível pensar nada maior” não pode existir somente na inteligência. Se, pois, existisse apenas na inteligência, poder-se-ia pensar que há outro ser existente também na realidade; e que seria maior.

Se, portanto, “o ser do qual não é possível pensar nada maior” existisse somente na inteligência, este mesmo ser, do qual não se pode pensar nada maior, tornar-se-ia o ser do qual é possível, ao contrário, pensar algo maior: o que, certamente, é absurdo.

Logo, “o ser do qual não se pode pensar nada maior” existe, sem dúvida, na inteligência e na realidade.”

PLANO FILOSÓFICO

O tempo todo ele se pergunta por que não vê a Deus, ainda que O conceba de forma limitada. Ele entende que 1) Deus está aqui e 2) que ele não O vê. Por quê?

Percebam que a situação descrita por Santo Anselmo pode ser ilustrada pelo que vou chamar de “a experiência do apartamento”: imagine-se confinado em um apartamento de muitos cômodos, cujas janelas lacradas deixam passar a luz, mas nenhuma imagem do exterior. Agora imagine que você, a partir da planta do apartamento, tenha de deduzir a forma exterior do edifício inteiro e a localização exata do apartamento.

É mais ou menos nessa situação que se encontra o meditador anselmiano. Tentemos reproduzir os movimentos de sua meditação.

Ele se recolhe em si mesmo. Procura por Deus, um Deus cujo conceito (no sentido mais forte do termo) ele possui, mas cuja ideia (no sentido mais literal de “imagem”) não alcança, porque ela o ultrapassa. Nesse sentido, o conceito, paradoxalmente, não poderia ser mais exato.

Implicitamente, ele admite que essa situação, mais angustiante do que propriamente contraditória, favorece o ceticismo do insensato.

O recurso que lhe resta é um só, mas suficiente: demonstrar pela análise do conceito, que a existência da ideia como coisa real é necessária, ainda que esse Ser, por sua própria essência, seja mesmo inabarcável pela sua inteligência limitada.

Uma observação importante antes de seguir em frente: uso os termos “conceito” e “ideia” aqui como “representação de essência”, onde o conceito é semântico e a ideia imagética. Isto é: toda ideia/ conceito é a representação de uma essência que tanto pode existir só na mente, como na mente e no mundo.

Nesse caso, por princípio, existir na mente e no mundo é mais do que existir só na mente. Mas, seja como for, eu preciso ao mesmo tempo vê-la e saber defini-la para possuí-la completamente.

Logo, Santo Anselmo admite que as ideia existem na mente com alguma realidade, uma realidade menor do que aquela das coisas que existem no mundo e na mente. Ou seja, Santo Anselmo é um essencialista ou mais até: um anti-nominalista. Digo isso porque, como veremos, se houver tempo, a pretensa refutação de Gaunilo tem algo de nominalista.

Mais um princípio está implícito na meditação de Santo Anselmo: a de que toda essência é um padrão de perfeição que serve de medida a todos os exemplares existentes dessa essência. Nesse caso, pode-se dizer que toda ideia corresponde à essência de algo que existe ou pode existir.

Então se a ideia que tenho de Deus se traduz como “aquele do qual nada maior pode ser pensado”, logo esse ser tem de existir necessariamente não só na mente como também no mundo, porque existir na mente e no mundo é mais do que existir só na mente.

Aliás, podemos ir um pouco além e dizer que, ao analisarmos com atenção o conceito, mesmo que jamais tenhamos nos dado conta dele antes, ele necessariamente sempre existiu em nossa mente, porque é próprio de sua existência existir sempre em todos os seres como padrão supremo de todas as perfeições pensáveis.

Poderíamos até dizer que Deus é um princípio autoevidente, mas semioculto.

PLANO TEOLÓGICO

Depois da apresentação desse argumento principal, Santo Anselmo segue explorando as consequências conceituais do argumento até o Capítulo XV, “Que ele é bastante maior que aquilo que se pode pensar”, onde afirma: “Portanto, ó Senhor, tu não és apenas aquilo de que não é possível pensar nada maior, mas és, também, tão grande que superas a nossa possibilidade de pensar-te.”

Ou seja, Santo Anselmo retoma a percepção do início, não mais como uma angústia paradoxal, e sim como uma conclusão apaziguadora.

E conclui, no Capítulo XVI, intitulado “Que a luz em que habita é inacessível”:“É realmente inacessível a luz em que habitas, ó Senhor, (…). Eu não vejo, sem dúvida, por causa do seu brilho, demasiado para os meus olhos, e, todavia, o que consigo ver, vejo-o através dela, da mesma maneira que o olho fraco do nosso corpo vê tudo aquilo que vê pela luz do sol, que, no entanto, não pode contemplar diretamente. A minha inteligência não consegue alcançar essa luz, (…) O olho da minha alma não pode fitá-la por muito tempo (…).”

Mas, reparem que ele já admite ver alguma coisa – “O olho da minha alma não pode fitá-la por muito tempo” – ainda que de forma imperfeita. Sua percepção se alterou ao longo da meditação, portanto.

Antes de abordar o que chamei de “o vexame de Gaunilo”, falta tratar do que é a questão central de Santo Anselmo, a relação entre fé e conhecimento.

Acho que é perceptível que, sob o ponto de vista estritamente lógico, o argumento dito ontológico não depende da fé. Ele é, sim, como que intensificado por ela, porque é essencial que o meditador seja levado pela fé a meditar sobre Deus, na medida em que a “ideia de Deus em mim” está encoberta pelo pecado.

Nesse sentido, é possível afirmar que a fé para Santo Anselmo não é uma mera intensidade emocional, mas um verdadeiro instrumento cognitivo, uma ferramenta espiritual, que disciplina a vontade, orienta a inteligência e apura os sentidos.

É óbvio, claro, que uma Teologia de ateus é um contrassenso. Mas nesse caso, bastaria uma fé “fingida”, hipotética? Sim e não. Sim, porque é possível, claro. E não porque uma fé fingida exclui a graça e, portanto, a sobrenaturalidade que é, por assim dizer, o seu meio ambiente.

Amarrando tudo que dissemos sobre conceito, ideia e objeto, sobre compreender e sentir, sobre inteligência e fé, vamos fechar tratando muito rapidamente do Capítulo VI, que me surpreendeu profundamente pela novidade que me trouxe, apesar de não ter lido ainda nenhuma referência a ele em todos os textos que li sobre o Proslógio.

Eis o que diz Santo Anselmo no Capítulo VI, intitulado “Como Deus é sensível embora não seja corpo”: “Sem dúvida, é melhor ser sensível, onipotente, misericordioso, impassível do que não sê-lo. E tu és tudo isso. Mas, poderás ser sensível sem ser corpo? Onipotente sem poder tudo? Simultaneamente misericordioso e impassível? Com efeito, se apenas os corpos são sensíveis porque os sentidos estendem-se pelo corpo e encontram-se dentro do corpo, como poderá acontecer que sejas sensível tu, que não és corpo e, sim, Espírito supremo, o que é melhor do que ser corpo? A coisa explica-se porque sentir é conhecer, ou tendência ao conhecer, e aquele que sente conhece segundo a propriedade dos sentidos, como, por exemplo, as cores pela vista, os sabores pelo gosto, etc. Não é, portanto, errado dizer que quem, de alguma maneira, conhece, sente. Portanto, ó Senhor, embora não sejas corpo, és, todavia, sumamente sensível, do mesmo modo que conheces profundamente todas as coisas; não, porém, segundo a pura sensação corpórea do ser animal.”

Isso me pareceu uma novidade incrível! Ainda estou estudando para ver o quanto é de fato uma novidade, mas a verdade é que não encontrei ainda nenhuma referência a esse capítulo.

Mas deixo com vocês a pergunta que me faço: que relação terá esse sentir que é conhecimento com a fé necessária para uma real compreensão?

Pensemos…

E passemos agora ao vexame de Gaunilo.

O VEXAME DE GAUNILO

Quando escrevia quase anonimamente para uma platéia erudita, que tinha muito claro para si como verdade um conjunto de conceitos apenas subentendidos no Proslógio, acredito que Santo Anselmo se permitiu um texto poético, atravessado de uma angústia metafísica própria da literatura mística e que, com elegância única, procura uma solução racional para seu impasse metafísico.

Bem, esse “doce Anselmo”, quando contestado pelo também beneditino Gaulino (mas provavelmente do mosteiro rival de Marmoutier, na região de Tours) cede lugar a outro, irado com a “ousada ignorância” de Gaunilo. E aí expõe todo o arsenal argumentativo que certamente foi o que fez dele o “Pai da Escolástica”. Precisão, clareza, elegância, ironia e uma disposição para disputa que reduzem Gaunilo a pó, fazendo dele o mais conhecido “escada” da história da filosofia.

Surra merecida, porque a argumentação de Gaunilo é vexatória. Resumindo, ele simplesmente aplica à ideia de “ilha” o mesmo raciocínio que Santo Anselmo aplicara a Deus, e daí pretende demonstrar o absurdo que seria concluir da ideia de “a ilha mais perfeita que se pode conceber” uma existência necessária.

Sem dificuldade, Santo Anselmo mostra que essa necessidade só se aplica de fato à ideia de “aquele ser de quem nada maior pode ser pensado”.

Já citamos a beleza da abertura do Proslógio. Vejamos agora o outro lado, a cáustica argumentação de um indignado Santo Anselmo:

Como as minhas palavras foram contestadas, não pelo insipiente contra o qual argumentei no meu opúsculo [o Proslógio], e, sim, por um homem que não é um insipiente, mas um católico, que toma a defesa do insipiente, será bastante para mim responder ao católico.

1. Quem quer que tu sejas, que colocas na boca do insipiente essas argumentações, sustentas que, se há na inteligência um ser do qual não é possível pensar nada maior, ele não existe ali de maneira que obrigue a admitir a sua realidade, e que, quando afirmo que é necessário que uma coisa exista verdadeiramente desde que concebida pelo pensamento como superior a tudo, esta demonstração – dizes – não é legítima, como não seria igualmente legítimo se se concluísse que aquela Ilha Perdida existe de verdade só porque quem ouve a sua descrição tem a idéia dela na mente.

Ora, eu respondo: se “o ser do qual não se pode pensar nada maior” não é compreendido pela inteligência ou concebido pelo pensamento, e não existe nem na inteligência nem no pensamento, então Deus não é o ser do qual não é possível pensar nada maior, ou não pensá-lo e, portanto, não existe nem na inteligência nem no pensamento. Para demonstrar quanto isso seja falso, uso como argumento, que não admite réplicas, a tua fé e a tua consciência. Portanto, verdadeiramente é possível compreender e pensar e ter na inteligência e no pensamento, “o ser do qual não se pode pensar nada maior”. Por isso, ou os argumentos com que tu te esforças em provar o contrário não são verdadeiros, ou as conclusões a que acreditas chegar são falsas.”

Acredito ser um erro atribuir a Santo Anselmo o apelo ao “argumento de autoridade” ou algo semelhante na passagem rubricada. Na verdade, ele simplesmente cobra de Gaunilo que raciocine como católico e não como insensato.

Gaunilo acusa Santo Anselmo de passar indevidamente das ideias às coisas, como se a simples existência de uma ideia na mente fosse suficiente para conferir necessidade à existência dessa ideia como coisa no mundo real. Isso faria de Santo Anselmo um idealista ingênuo ou grosseiro. Por outro lado, é possível perceber na argumentação de Gaunilo sementes de nominalismo – ou, ao menos, um mal disfarçado anti-essencialismo.

Por aí percebemos que a dita “questão dos universais” atravessa o pensamento ocidental desde sempre, e desde sempre opondo ceticismo e fé em torno do valor do conhecimento.