Católico ou perenialista?

A coisa é simples: não é possível ser católico e acreditar na tal Unidade Transcendental de todas as religiões. Ponto final.

Essa ideia, da qual a Torre de Babel é uma alegoria exemplar, é o fundamento do perenialismo cuja versão cabocla ronda nossas igrejas e capelas. Supõe que todas as religiões – o catolicismo inclusive – têm uma origem comum, uma especie de revelação primordial de um deus desconhecido, e dela seriam versões parciais mais ou menos decadentes, segundo os critérios sempre discordantes de seus gurus.

Coloca-se no mesmo saco o hinduísmo, o budismo, o judaísmo, o islamismo, e, claro, o catolicismo.

Ora, não é preciso pensar muito para perceber que, sob essa perspectiva, o catolicismo, longe de ser a Verdade Revelada pelo Deus Vivo em Pessoa, é – justamente por isso! – a religião de todas a mais falsa e mentirosa. Pois, nesse caso, Jesus, ao postular ser o Filho de Deus, segunda pessoa da Trindade, só pode ser ou doido ou pilantra.

Claro, isso não é dito explicitamente, ainda mais se o que se quer é fazer os não-iniciados aderirem a forma religiosa que lhes é culturalmente mais próxima. Mas é esse o pano de fundo do argumento perenialista que postula a irreversível decadência do Ocidente católico (expressão redundante porque dizer ocidental é dizer católico, uma verdade mal compreendida até por nós, católicos), cuja única alternativa de sobrevivência seria a islamização – direta ou indireta.

Essa ideia – suficientemente estúpida para não ser levada a sério entre a elite pensante – alcançou um relativo sucesso entre mentes intelectualmente fracas, impregnadas da mentalidade “progressista” oriunda da vulgarização da má filosofia idealista hegeliana e kantiana, e para quem os conceitos simétricos de decadência e progresso, devidamente embalados num romantismo sentimentalista e exaltado, exercia (e, infelizmente, ainda exerce) uma atração irresistível.

No Brasil, essa baboseira exotérica (sim, com “x” mesmo, porque sua vwersão esotérica se pretende… esotérica) teve de adaptar-se para alcançar algum apelo. Num país onde o conhecimento mais profundo do islã se resume a uma marchinha de carnaval (Alá-lá-ô ô-ô-ô-ô-ô, mas que calor…”), a alternativa de uma islamização direta seria risível. Partiu-se então para a ação indireta. É quando entra em cena esse falso catolicismo que, como se disse acima, hoje ronda as igrejas e capelas católicas e especialmente as da Tradição. E com o beneplácito de alguns sacerdotes conservadores, especialmente encantados com o seu vocabulário.

Então, é hora de repetir: não é possível ser ao mesmo tempo católico e perenialista. E mesmo que esse perenialismo tente canalhamente se esconder sob o manto da mentira e do engano se fingindo de católico para seguir propagando o erro, seu rabo pontudo aparece aqui e ali, em artigos semi-reservados e nos discursos oficiais de seus discípulos.

Formam, enfim, no máximo, mais uma seita, cuja a característica mais original é ser daquelas a que se pode acrescentar o apodo “dos Últimos Dias”, não porque aguardem o apocalipse para breve, mas porque suas opiniões e análises mudam ao sabor dos ventos da conveniência, de tal modo que o que foi dito nos “últimos dias” de hoje sempre difere do que foi dito nos “últimos dias” anteriores.