Permanência e impermanência

Lendo sobre a querela entre realistas e nominalistas me ocorreu pensar se na discussão ao longo dos séculos – e talvez já o nominalismo seja um sintoma disso – não se perdeu de vista o que talvez fosse a questão de fundo de Platão e Aristóteles – própria de uma filosofia que se pensava junto com a Física e as outras ciências nascentes – que é a questão da identidade das coisas: de por que de macieiras só nasçam maçãs, e de homens outros homens. Enfim, das coisas persistirem no ser que lhes é próprio.

Essa “identidade de família”, digamos assim, é, salvo engano, o universal. É o que faz que de homens só nasçam homens. Pois, o que me parece estar em jogo na questão dos universais é o ser enquanto identidade, continuidade, duração, persistência.

“Por que o Ser”, pergunta-se Leibniz, acho eu, sintetizando uma inquietação que está na raiz do pensamento, “e não o Nada?”.
Eu nem seria tão dramático e em vez de “nada” diria simplesmente: “Por que o ser (a identidade, a permanência) e não a impermanência?”, de tal modo que as coisas sequer durassem o suficiente para ser algo, dissolvendo-se continuamente em formas singulares sem nenhuma lógica aparente, como acontece nos sonhos, cotidianamente – como anjos fátuos – ou mesmo em formas comuns – homem, borboleta, pedra, flor – mas sem que houvesse uma pessoa que unificasse essas sucessivas experiências?

Enfim, um Universo sem memória.

À medida que o pensamento vai perdendo seu vigor, isto é, que o laço de confiança entre a consciência e o mundo vai se dissolvendo e já não cremos que a mente é capaz de conhecer a verdade das coisas, perde-se de vista essa noção de unidade do pensamento e tudo se reduz a essa discussão sobre palavras, conceitos, definições.

Aristóteles e Platão, me parece, estão abismados que as coisas sejam – e é isso que é de fato fascinante. De certo modo, hoje a Genética demonstra a hipótese de São Tomás e Aristóteles de que o universal está nos particulares e os define como seres ou entes (como preferem alguns autores).

Como esse encantamento inicial vai degenerando para essa desconfiança doentia tão bem representada em Kant é uma questão arqui-teológica, mística, a Queda posta em palavras, revivida, não mais no âmbito sobrenatural – e trágico – do Jardim, mas pelas ruas monótonas da Königsberg do século 17, por um quase anão, branquelo e casto.

Vida contemplativa

“O contemplativo não é um homem que se senta de pernas cruzadas embaixo de uma árvore e edifica apenas a si mesmo ao obter a resposta de problemas essenciais e espirituais.

O contemplativo é alguém que procura conhecer o sentido da vida, não apenas com a cabeça, mas com todo o seu ser, vivendo em profundidade e na pureza para se unir à própria Fonte da Vida, uma Fonte infinitamente presente e por isso tão real que não pode ser contida numa palavra ou num conceito, ou em  um nome atribuído pelo homem. Pois a palavra humana tende a enquadrar as realidades que expressa para poder expressá-las. E tudo o que pode ser enquadrado não pode ser o infinito que se apresenta ao contemplativo, sem palavras e sem a mediação precisa do pensamento analítico.

Podemos então dizer que a contemplação é a percepção intuitiva da vida em sua Fonte, Fonte que é Aquele que revelou a Si mesmo como o inominável ‘Eu sou’, e depois, de novo, fez a Si mesmo conhecer como Homem na pessoa do Cristo.

A contemplação é a experiência de Deus no Homem, de Deus no mundo, de Deus em Cristo. É a obscura intuição de Deus em Si mesmo, e essa intuição é um dom de Deus, que Se revela em Seu próprio ocultamento como O Desconhecido.”

Thomas Merton, “Poetry and Contemplation: a reappraisal”.

Da beleza

“Her quiet pictures of mothers and children, or of women alone in the privacy of their rooms, are deeply moving. They have that strange elusive quality of a Schubert song or a Vermeer painting, of capturing precisely the bittersweet fleeting moment that makes life, for all its disappointments, travails, and hardships, so worth living. Such moments are melancholy as well as joyful precisely because they are fleeting: transcendently beautiful but so brief as to be immeasurable. When we look at the milkmaid pouring milk in Vermeer’s painting in the Rijksmuseum, we see—as for the first time—how beautiful is a humble stream of milk that pours from a jug, how supremely elegant is its trajectory, how subtle is the play of light upon it; but we understand simultaneously that the moment cannot last, indeed that part of its beauty is its very transience. Though not for long, perfection is indeed of this world. And this perception reconciles us to our existence, full of ugliness as it might otherwise be. If there are Vermeerian moments in our life—as there will be, if only we pay close enough attention—we shall reach serenity, at least intermittently. And that is enough.”
Theodore Dalrymple, A Lost Art, in Our Culture, What’s Left of It.

* * *

Cabotinamente talvez, lembrei deste poema meu que acho tão bonito:

O lírio

O mundo como idéia

“Qualquer que seja o apelido que a ‘dama ideia’ tenha, poderá ser vermelha, preta ou azul… onde não estiver o cristianismo tudo pode ser reduzido a ela. O cristianismo é este chamado à relação responsável homem a homem, do homem-Deus rumo ao homem, do Filho de Maria, que um dia nasceu e morava numa rua tal e que portanto não posso reduzir a uma ideia. Onde não houver esta relação fundamental com o fato humano fundamental, o Filho que saiu do ventre de Maria, a ‘dama ideia’ volta a dar o show dela. Veja esta Universidade Católica, para transformá-la naquilo que fizeram, precisou primeiro esvaziar o cristianismo de seu conteúdo, reduzindo-o a uma ótima ideia (vamos lutar para os pobres, vamos resolver as coisas etc…), assim a universidade se torna uma instituição. Para isso é preciso que desapareça tudo o que cheire a humanidade pura, eliminar Maria e os santos, desta forma Deus, o Deus Trinitário, fica lá no céu. Para que a ‘dama ideia’ possa dar as cartas é necessário esvaziar o cristianismo de conteúdo e deixá-lo no reino do conhecimento. O cristianismo seria a milésima ideia que a Humanidade não pôs em prática. Não se trata mais dessa ‘inexorável positividade do real’ que se me impõe e que impõe o outro. Assim é possível substituir a presença inevitável e opaca do outro com um receituário”.
Bruno Tolentino

O caso Kant

Este artigo foi publicado na revista Permanência, # 286. Originalmente, o texto foi elaborado como uma palestra dada a um grupo de amigos católicos em março de 2017.
O objetivo desta conversa é apresentar um tema central do pensamento de Kant: as “formas da sensibilidade” que, na Crítica da Razão Pura, são abordadas na Estética Transcendental – “estética” aqui com o sentido de “gnosiologia” ou “teoria do conhecimento”.
Uma mínima compreensão desses conceitos decisivos do kantismo é essencial para entendermos os rumos do Modernismo – especialmente do que Dom Lourenço Fleichman chamou de “subjetivismo moderno” – e o quanto ele é incompatível com o Catolicismo, em geral, e com o tomismo, em particular.
Nossa conversa se dividirá em três partes.
Na primeira, vamos pensar juntos sobre o modo como pensamos, num exercício do que podemos chamar de “gnosiologia natural”.
Na segunda, veremos como Aristóteles e São Tomás sistematizaram essa “gnosiologia natural”.
E na terceira, veremos o quanto e como Kant se afasta dessa concepção, numa inversão que ele chamou “copernicana”, em referência a Copérnico, e que nós bem poderíamos chamar de demoníaca, por conta de tudo o que será perdido.

Continue reading →

A falsidade da incerteza

Qual a sua opinião sobre o fato de muitos cientistas aceitarem a interpretação de Copenhague (7) para a Mecânica Quântica?

Essa interpretação é uma falácia. Baseia-se na premissa de que se uma ação intermediária não pode ser medida com exatidão, então não pode produzir-se com exatidão. É uma falácia porque na primeira parte da premissa a palavra exatidão é usada em sentido operacional, e na segunda parte é usada em sentido ontológico. Isso é errôneo, porque os dois campos não se relacionam.
Continue reading →

Sobre os transcendentais

“Though he doesn’t put it this way, what Polanyi is pointing out here is that modern scientists are implicitly committed to the reality of truth as truth is understood within the doctrine of the transcendentals – that is to say, to truth conceived of as being or reality in its relation to an intellect. The reason they prefer terms like “simplicity” and “economy” is that they tend also to be committed to the assumption that intellect is a highly derivative phenomenon – a mere byproduct of evolutionary history that appears very late in the game as it were – and thus ought not to enter into our characterization of reality at the most fundamental level. And the trouble is that when this reference to the intellect is deleted, it is no longer clear why simplicity and the like ought to be criteria of theory choice.
Keats was right to say that “beauty is truth, truth beauty,” but wrong to follow up this claim with the further assertion that “that is all ye know on earth, and all ye need to know.” For we do need to know something else – namely the traditional, Scholastic metaphysics that makes the first claim intelligible.”
Edward Feser (texto completo)

Da sabedoria ordinária

“Não há força maior que encontrar nos pontos mais essenciais, em toda a sua luz, as afirmações mais comuns da humanidade. Elas permanecem como fórmulas vãs e banais se não saem do fundo de nós mesmos como se fôssemos nós mesmos quem as tivesse inventado. Deve parecer-nos, ao mesmo tempo, que nós sempre as soubemos e que as encontramos pela primeira vez. Mas é estéril começar por tomá-las de fora acreditando que é possível em seguida reavivá-las dando-lhes uma espécie de calor emprestado.”
Louis Lavelle,  Regras para a vida cotidiana