Quanto custa não deixar-se encantar pela destruição

Paulo Brabo em aserenissima.baciadasalmas.com

Se há um lição na história da humanidade é que confrontada com a escolha entre o aperfeiçoamento de si mesma e o aperfeiçoamento da tecnologia, a humanidade vai escolher a tecnologia.
David Sarac

Minha lembrança mais antiga de uma coisa (um objeto, em oposição às memórias de lugares e pessoas, que são mais antigas) é a lembrança grande e terrível de um rolo compressor ‒ um rolo compressor vermelho que vi pela rua na República da Cloroquina onde nasci, capital do Paraná.

A ideia de que pudesse existir uma máquina com uma potência tão devastadora e ao mesmo tempo um propósito concebivelmente benigno me fascinou e me aterrorizou, e terá determinado talvez todos os meus otimismos e pessimismos.

Fique claro, e digo a mim mesmo tanto quanto a quem ainda não terá notado, que um rolo compressor não tem propósitos benignos e não tem concebivelmente como ter. É a metáfora sem dissimulação da coisa usada para aquilo que foi criada: para destruir e passar o pano na mesma viagem.

O homem natural em mim é ainda muito capaz de deixar-se fascinar pelo poder de destruição do que quer que seja, e pode na mesma viagem ser convencido a crer, pela intermediação desse fascínio, que o poder para destruir pode ser usado para propósitos benignos.

O problema de catástrofes de desolação como Bolsonaro, como a pandemia e como o aquecimento global é que [1] a admiração perversa por aquilo que tem poder para destruir e [2] a fé implícita no poder criador e redentor da destruição estão embutidos na argila primata que usamos para moldar a nossa identidade.

Diante da catástrofe a reação “humana” é a paralisia encravada no centro geométrico entre o terror e a admiração. Aquilo que destrói demonstra poder, e fomos moldados e selecionados ao longo de milênios para ao mesmo tempo desejar e nos dobrarmos diante do poder.

O poder de não desejar o poder e o poder de não encontrar qualquer prazer na destruição são produtos culturais refinadíssimos e raros. Requerem um imaginário alternativo e uma cultura alternativa, sofisticações que se contraponham à vertente humana usual de exploração e espoliação.

As culturas humanas que não cultuam o poder recorrem a disciplinas custosíssimas e a vastas mitologias tutelares de modo a driblar a persuasão dessas linhas internalizadas de programação. E, naturalmente, correm o risco perene de serem aniquiladas pelo rolo compressor das culturas que cultuam o poder e a destruição.

A reação possível a catástrofes como a climática terá portanto de ser xamânica, ou encantada, ou indígena, ou cultural, ou espiritual ‒ ou será resposta nenhuma, permanecendo baseada na velha fixação ocidental pelo poder e no fetichismo da esperança na criatividade da destruição.

Metafísicas, não epistemológicas

Descartes nomeou as suas meditações de metafísicas, mas a crítica trivial as lê como se fossem epistemológicas. Há, de fato, uma região do pensamento compartilhada pela metafísica, a ontologia, a teologia, a psicologia, a epistemologia ou gnosiologia, e até a física. É certo também que considerações metafísicas têm por isso consequências epistemológicas, psicológicas, etc.

Daí a confundir as abordagens feitas a partir desses elementos comuns vai uma distância enorme. Criticar a partir de um ponto de vista epistemológico uma abordagem que se pretende metafísica é mais do que um mero erro: é também uma grosseria.

Isso não significa negar as explícitas intenções epistemológicas de Descartes e a revolução que seu método de matematização da ciência irá produzir. Nesse sentido, as Meditações podem ser entendidas como a busca de um fundamento metafísico para o método. Até aí, tudo bem.

Mas, nesse caso, a matemática deve ser entendida como mathesis universalis, isto é, com a linguagem universal, e, portanto, comum, que faz a ligação entre o Deus Criador e o Homem no entendimento de toda a Criação. Dá-se assim seguimento ao antiquíssimo projeto que é pitagórico-platônico-aristotélico-neoplatônico-escolástico-e-etc.

Por outro lado, o projeto tem também obviamente alcance ontológico e teológico: demonstrar o fundamento da verdade do pensamento, o nexo de verdade que une mente e mundo, coincide com demonstrar a verdade de um Deus Criador, Vivo e Verdadeiro.

Por isso, contestar a catolicidade do pensamento de Descartes (a despeito de seus erros) é quase uma contradição, ainda que se possa desprezar seus supostos efeitos. Também me parece uma tolice duvidar do cristianismo de Descartes, atribuindo-lhe uma a intenção de ruptura radical, ainda que seja inegável a novidade de suas idéias.