Sobre o livre-arbítrio

Deus criou o mundo de tal modo que ele pudesse acomodar a liberdade – que a nós “aparece” como contingência, a às vezes angustiante contingência de todas as coisas – sem que isso implicasse em perda de Sua onipotência. Ainda que seja possível conceber Deus limitando-se a si mesmo por misericórdia por suas criaturas, essa auto-limitação voluntária (que, se não me engano, é uma tese defendida por alguns teólogos) não me parece necessária.

Um mundo onde Deus já conhecesse previamente a ação de suas criaturas nos conduz inevitavelmente à perversão protestante que divide os homens em winners and loosers, em eleitos e condenados, roubando da ação humana toda espontaneidade, e substituindo-a por uma irracionalidade passional: “Peca, mas peca com fervor” (como se fosse mesmo possível conciliar pecado e fé).

Mas poderia Deus não saber desde as coisas mais triviais – se vou me levantar agora para pegar café ou se terminarei antes este paragráfo – até as mais decisivas – ao final, serei salvo ou perderei o Céu (mesmo que pela via, inevitável a quase todos nós, do Purgatório) aos 45 minutos do segundo tempo?

Essa de fato é uma pergunta vigorosa: pode Deus não saber algo? Antes de responder, mais um café…

Minha resposta é: Ele sabe. Ele sabe tudo. Não no sentido minucioso e entediante de saber cada irrisória atualização de potência de cada uma de suas criaturas, mas no sentido de saber todas as possibilidades que constituem o ser de cada uma delas. Ele conhece todas as escolhas possíveis, Ele as criou, e elas já estão dadas desde o inicio dos tempos e estão sendo renovadas em suas probabilidades a cada instante por um jogo de infinitas remetências mútuas, de modo que cada ação influencia todas as outras, e é por elas influenciadas.

É a Criação: um imenso organismo cuja finalidade só Deus conhece e que os mecanismos humanos imitam com crescente perfeição sem esperar jamais alcançar a mais tímida semelhança.

Há, por isso, analogias possíveis. A mais óbvia e também a mais grosseira, é a do cientista observando o comportamento de seus ratinhos no laboratório para testar suas hipóteses.

Mas há uma diferença fundamental: Deus nos ama. Ele não testa hipóteses. Ele tem um fim que nos escapa e que está se cumprindo desde sempre, mas que envolve e exige como fundamento a liberdade de todas as suas criaturas. Porque é próprio de Deus ser livre

Deus nos ama e torce por nós, e sofre com nossas escolhas, pode antecipá-las, antevê-las, mas dotou-nos do poder de nunca escolher o pecado, por mais tentador e inevitável que ele nos pareça. Esse poder nós temos: o poder de não pecar. Mesmo quando todas as nossas escolhas foram nos conduzindo de pecado mortal em pecado mortal até um estado de impureza que parece nos condenar ao Inferno, mesmo aí a possibilidade do milagre da graça está dada, ao alcance de nossa vontade. Basta-nos pedir. E Deus torce por nós, sofre por nós. E por isso nos concede o amparo extra dos anjos da guarda. Estivesse nosso destino de algum modo determinado, de que nos serviriam eles?

Sempre, a cada alternativa que a vida nos oferece, Deus torce para que prevaleça aquela que nos conduzirá à Salvação. O campo de possibilidades já está dado. Mas a escolha é nossa. Fosse Deus um cientista, qualquer uma de nossas escolhas lhe seria indiferente, pois não escapamos nunca de sua Vontade, porque, repito, as possibilidades todas já estão dadas. Mas, novamente: Deus nos ama. Ele não é portanto indiferente ao destino de sua Criação. Ele tem para ela uma finalidade, que será cumprida em maior ou menor tempo. É só com isso que conta o mal: com a dilatação dos prazos. O fim já está dado. Mas sua consecução não se dá por uma grosseira linha reta mas, em caleidoscópica configuração, viva, contingente, livre – e, portanto, aberta ao milagre, à surpresa, ao inesperado.


Acho possível que alguém enxergue nesse arrazoado algum traço de pelagianismo. Não é essa minha ideia. Acredito que Deus já nos dispôs dos meios positivos para a Salvação, mas nos dotou de uma liberdade – que será em maior ou menor grau intrínseca à Criação – que nos permite escolher a negação, a privação do bem, o mal. Se escolhemos um ou outro caminho, estaremos de acordo com a Vontade de Deus – disso não escapamos. Mas não será senão pela Graça que perseveraremos no caminho da Salvação. E como podemos alcançá-la? Simplesmente pedindo! Esse é o cerne da minha, digamos, tese: os eleitos são os que pedem. Nos Evangelhos – e eu tenho repetido isso toda hora, mas sempre com a mesma perplexidade – Jesus sempre concede o que lhe pedem – porque todo pedido é fruto da fé.


Essencialmente, não muda a percepção de que toda criatura possui um destino cuja a finalidade deveria ser a Salvação. O que muda é que em vez de perceber esse destino com uma linha reta, eu o percebo como um campo de possibilidades já dadas e que serão atualizadas pela vontade da criatura. O que faço é tentar levar às últimas consequências a ideia de potência e ato. A onisciência de Deus é preservada porque ele conhece o campo de possibilidades da criatura, Ele o criou segundo um arranjo de mútuas referências cósmicas inacessível à inteligência de qualquer criatura, homem ou anjo, de tal modo que cada escolha afete a totalidade das coisas e seja por ela afetada, e assim se compensem mutuamente de modo que a finalidade última da Criação não se perca nem desvie.

O heresiarca involuntário

Passei por heresiarca sem querer. Temendo por minha alma, amigos me avisaram que eu podia estar desafiando a doutrina da Igreja num texto que publiquei no Café Impresso, em que conjecturo que aos condenados ao Inferno será concedido o esquecimento, quando a doutrina afirma que o Inferno é eterno.

Primeiro de tudo: não sou teólogo. Logo, o que faço é literatura, não é teologia. Mas um escritor (eu preferiria me descrever como um “descritor”, mas isso é outra conversa…) também produz seus textos fundado em argumentos, ou melhor, em cadeias lógicas de causa e consequência. Sua percepção é poética, isto é, mais aberta à analogia. É, portanto, muito mais especulativa, mais livre dos limites necessários de uma ciência específica. O escritor está mais ligado ao senso comum, ao realismo cotidiano, comezinho, ao mesmo tempo que, com suas metáforas, ele amplia as fronteiras da realidade. O poeta é, digamos, o bandeirante, enquanto o cientista é o colonizador.

Feito o nariz de cera, prossigamos. Começo pela percepção mais primária, mais infantil até em sua inconsistência: a ideia de um Inferno eterno depois (e isso faz toda a diferença) do Juízo Final concomitante, simultâneo, paralelo ao Céu eterno, quase como um complemento da Glória, é uma ideia desagradável.

Uma coisa me impressiona nos Evangelhos: Jesus sempre atende quem recorre a Ele com fé. Isto é, acreditando que Ele é quem diz ser. A ninguém Jesus disse não. Até os demônios foram atendidos quando pediram para ser “transferidos” para os porcos de uma manada.

E o que querem os pecadores? O perdão ou o esquecimento. Aquele que se arrependeu genuinamente quer o perdão. Aquele que se acha justificado em seu pecado quer o esquecimento, seja no sentido da anistia, seja no sentido de ser deixado de lado.

Façamos agora, um salto. O que é o pecado? O pecado é o mal? E o que é o mal? Neste momento, entra em cena Santo Agostinho com sua definição do mal: o mal é a privação d o bem. Com isso ele está dizendo que o mal nao tem uma densidade ontológica: ele é uma negação.

Quanto mais penso nessa definição, mais admirado fico. Em alcance, originalidade, simplicidade e eficácia ela rivaliza com o conceito duplo de ato/ potência e Aristóteles. Por outro, e muito mais importante do que rivalizar, ele o complementa. Os dois conceitos combinados (ato/ potência + mal como privação) criam um campo de reflexão, um ambiente conceitual que oferece a abstração de princípios capazes de dar conta da realidade natural e sobrenatural de um modo muito mais completo.

Agora tentemos extrair dessa ideia de mal o destino do Inferno depois do Juízo.

Enfatizo o “depois” porque, se o Inferno é eterno, então ele já é eterno, e sempre foi eterno, até o Fim dos Tempos. E talvez devamos entender essa expressão “fim dos tempos” num sentido literal e forte: depois do Juízo, todos os tempos que resultaram do pecado original – e aí poderíamos incluir a eternidade do Inferno – serão finalizados, e toda a Criação será restabelecida na Glória do Senhor.

Enfim, o Inferno não começará a ser eterno em algum momento, e quem está no Inferno  vive o Inferno como eternidade, e está lá há uma eternidade. Mas nume eternidade sem Deus e sem Glória. Na analogia muito fraca: estar no Inferno por um segundo, seria nunca ter deixado de estar lá.

Voltemos então à ideia de mal. Se o mal é privação (do bem), logo o mal não é algo, no sentido forte, ontológico. O mal portanto é nada. O pecador que pratica o mal por vontade deliberada e sem arrependimento deseja o mal. Portanto, ele deseja a privação do bem, isto é, nada. Não sei se vale a pena entrar agora na questão da ontologia desse nada que é o mal.

Já vimos que Jesus, que é Deus, não recusa às criaturas o elas lhe pedem. Então é possível supor que no Dia do Juízo aqueles que desejam o nada, receberão o nada. E desses talvez se possa dizer, numa paráfrase: do nada vieste, ao nada retornarás.

O esquecimento a que me refiro é esse “retorno ao nada”. Certa vez, conversando com um padre amigo a propósito da conferência que fiz sobre o idealismo kantiano, conjecturamos o que seria para uma criatura ser esquecido por Deus. A arqueologia de vez em quando se depara com objetos cujo significado se perdeu. E por que se perdeu? Porque não se tem mais memória de sua finalidade ou, dito de outro, modo de sua essência artificial de objeto criado por mão humana. Nesse caso, o que aconteceria com uma criatura cuja essência fosse esquecida por Deus? Retornaria ao nada, concluímos. Isto é, ela deixaria de ter existido! Imaginamos então que na prática todas as menções a essa criatura – digamos, por exemplo, a rosa – seriam apagadas da Natureza, dos livros, da memória dos homens e dos anjos. E quem sabe às vezes aparecesse em sonho a algum vivente que dela depois de acordado não se recordaria.

Enfim, é com esse esquecimento misericordioso, justo e desejado que os pecadores do Inferno será contemplados. Não sei se é assim, não afirmo que o seja. Mas gostaria muito que fosse.