Saindo da caverna

O que mais me intriga na teoria abstrativa é que de cara a abstração dos dados sensíveis não nos dá mais do que uma sombra, um contorno genérico. O que de fato nos atrai, mobiliza, interessa – a coisa em si, para provocar os kantianos que parecem chamar assim exatamente a essa sombra – fica para trás, na conta da contingência e da sensibilidade. O mito da caverna, com seu trágico teatro de sombras, não é fortuito.

Esperando capturar a essência das coisas, acaba-se por desprezar o que nelas é propriamente a vida; pensando resgatar o eterno, acaba-se aprisionado pela morte, ou, ao menos, para não soar tão dramático, pela não-vida.

A solução genial de Aristóteles para contornar o problema herdado de Platão é introduzir o conceito de ato/potência como uma segunda camada conceitual que, no interior escuro dessa sombra, introduz o conteúdo indeterminado da potência.

É a potência que dá vida à noção de essência e a integra à realidade como uma dimensão presente: parafraseando Ortega eu sou a minha potência em face das circunstâncias presentes.

Subitamente, o que antes era uma mera sombra vazia de relevância, ganha um conteúdo indeterminado, uma quase-infinito fechado pelos contornos de uma figura, indissociável do objeto presente que constitui. Não se trata então de procurar o que está por trás das coisas, mas o que está dentro delas. Não estamos mais nas trevas, mas cegos de tanta luz: as criaturas não são simulacros, mas abismos de verdade.

Sair da caverna de fato é desprezar a sombra como imagem da realidade.

A abstração em si é a negação do que importa: a singularidade de todas as criaturas. E negá-la é tornar as coisas a presa apetitosa da vontade de poder que resultou da Queda. Não as olhamos mais com um olhar singularizante e amoroso, mas as reduzimos a meros exemplares instrumentalizáveis segundo a minha vontade – vontade de poder que é o contrário do amor pregado por Jesus.

Porque é no sensível, no singular, no corpo – a pedra rejeitada – que de fato a alma se expõe como pessoa: a pessoa está em seu corpo, mas a abstração não nos diz nada sobre ela.

Quanto custa não deixar-se encantar pela destruição

Paulo Brabo em aserenissima.baciadasalmas.com

Se há um lição na história da humanidade é que confrontada com a escolha entre o aperfeiçoamento de si mesma e o aperfeiçoamento da tecnologia, a humanidade vai escolher a tecnologia.
David Sarac

Minha lembrança mais antiga de uma coisa (um objeto, em oposição às memórias de lugares e pessoas, que são mais antigas) é a lembrança grande e terrível de um rolo compressor ‒ um rolo compressor vermelho que vi pela rua na República da Cloroquina onde nasci, capital do Paraná.

A ideia de que pudesse existir uma máquina com uma potência tão devastadora e ao mesmo tempo um propósito concebivelmente benigno me fascinou e me aterrorizou, e terá determinado talvez todos os meus otimismos e pessimismos.

Fique claro, e digo a mim mesmo tanto quanto a quem ainda não terá notado, que um rolo compressor não tem propósitos benignos e não tem concebivelmente como ter. É a metáfora sem dissimulação da coisa usada para aquilo que foi criada: para destruir e passar o pano na mesma viagem.

O homem natural em mim é ainda muito capaz de deixar-se fascinar pelo poder de destruição do que quer que seja, e pode na mesma viagem ser convencido a crer, pela intermediação desse fascínio, que o poder para destruir pode ser usado para propósitos benignos.

O problema de catástrofes de desolação como Bolsonaro, como a pandemia e como o aquecimento global é que [1] a admiração perversa por aquilo que tem poder para destruir e [2] a fé implícita no poder criador e redentor da destruição estão embutidos na argila primata que usamos para moldar a nossa identidade.

Diante da catástrofe a reação “humana” é a paralisia encravada no centro geométrico entre o terror e a admiração. Aquilo que destrói demonstra poder, e fomos moldados e selecionados ao longo de milênios para ao mesmo tempo desejar e nos dobrarmos diante do poder.

O poder de não desejar o poder e o poder de não encontrar qualquer prazer na destruição são produtos culturais refinadíssimos e raros. Requerem um imaginário alternativo e uma cultura alternativa, sofisticações que se contraponham à vertente humana usual de exploração e espoliação.

As culturas humanas que não cultuam o poder recorrem a disciplinas custosíssimas e a vastas mitologias tutelares de modo a driblar a persuasão dessas linhas internalizadas de programação. E, naturalmente, correm o risco perene de serem aniquiladas pelo rolo compressor das culturas que cultuam o poder e a destruição.

A reação possível a catástrofes como a climática terá portanto de ser xamânica, ou encantada, ou indígena, ou cultural, ou espiritual ‒ ou será resposta nenhuma, permanecendo baseada na velha fixação ocidental pelo poder e no fetichismo da esperança na criatividade da destruição.